[O que ler de] Angela Davis

06.02.2017

Suplemento Pernambuco
Joice Berth

Desta vez vamos de Angela Davis na seção [o que ler de], miniprojeto que traz indicações de indicações de leitura feitas por estudiosos da obra de determinada autora ou autor. A periodicidade é irregular.

As indicações da obra de Angela Davis vêm de Joice Berth, feminista interseccional negra e integrante do Coletivo Imprensa Feminista. Berth é arquiteta e urbanista formada pela Universidade Nove de Julho e pós-graduada em Direito Urbanístico pela UFMG. 

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Tudo que Ângela Davis disser deve ser ouvido e absorvido com bastante atenção. Tamanho cuidado se deve ao fato de estarmos diante da maior intelectual do século XX e seguramente uma das grandes e fundamentais pensadoras desse século. Ângela, por toda sua trajetória histórica é uma figura que detém uma linha de reflexão que fundamenta seu ativismo de maneira simples (e não simplista) e direta e não deixa dúvidas quanto à credibilidade de suas ideias que são intrínsecas às suas vivências.

Sua fala tranquila e sua escrita esclarecedora apontam para a segurança de quem se alinhou aos ideais de equidade e influenciou completamente os acontecimentos mais importantes do século passado. Sua atuação junto ao extinto Partido dos Panteras Negras, iniciaria um londo caminho de luta pelos direitos civis de negros e negras de toda a América e também do mundo. Seu ativismo se direciona, através de sua experiência na prisão, para a questão do encarceramento em massa e do abolicionismo penal, guiando-nos com mãos firmes e pelo universo irretocável de suas reflexões acerca do tema.

Impossível não se espantar com o “mundo novo” que Ãngela descortina e que os bastidores da política não só escondem, como corroboram para que a exploração viabilizadas pelas opressões estruturantes como o racismo e o machismo, seja o grande trunfo no acúmulo de riquezas e privilégios sociais que pessoas brancas desfrutam em todas as partes do mundo.

Mulheres, raça e classe (tradução Heci Regina Candiani. Boitempo, 2016)

A grande sacada editorial de 2016 foi da Boitempo, ao lançar, com cerca de 35 anos de atraso, a obra mais importante de toda bibliografia de Ângela Davis. Digo que foi grande sacada, porque o Brasil é um país que, como bem observa a grande filósofa e pensadora Sueli Carneiro, pratica o epistemicídio como um dos sustentáculos do racismo institucional, uma vez que ignora propositalmente a capacidade intelectual de pessoas negras não publicando suas produções e nem indicando nas bibliografias acadêmicas em geral. O mundo todo sabe da grandeza do pensamento de Ângela Davis, mas por aqui isso nos foi negado até ano passado, quando o lançamento de Mulheres, raça e classe quebrou essa barreira com maestria, deixando uma áura de esperança sobre futuras traduções do mesmo porte, como Patricia Hill Collins ou da própria Ângela Davis.

É uma obra necessária, indispensável, contundente e reafirmadora das premissas do feminismo negro e dos discursos mais que oportunos que clamam pela interseccionalidade como bandeira para todas as reflexões e ações políticas, sociais e culturais que visam dizimar as desigualdades e assegurar direito às mulheres. Ângela, através de um passeio pela história, traça um panorama da formação social pautada pelo racismo atuante, focada na mulher negra, base da pirâmide social ainda hoje.

Ela entrelaça as relações entre ser mulher, ser negra e ser pobre como condicionantes que moldaram a situação de vida que experimentamos ainda hoje em todo o continente, guardadas as devidas particularidades culturais da população negra em cada parte dele.

Ainda hoje, enfrentamos dentro das pautas feministas, as limitações imposta pela ausência do recorte racial. Nesse sentido, Ângela mostra que não evoluímos, pois, como bem vem pontuando outras grandes intelectuais brasileiras como Lélia González, o racismo compromete seriamente o avanço nas discussões até mesmo dentro dos movimentos que lutam pela emancipação e garantia dos direitos as minorias. Isso respalda críticas que tem sido feitas sobre a incidência do pensamento colonial, até mesmo nas menções políticas que se colocam como progressistas, mas que não rompem com a estrutura machiracista, ao contrário, a fortalece em diversos momentos.

“As mulheres negras estavam mais do que dispostas a colaborar com os seus ‘claros poderes de observação e julgamento’ para a criação de um movimento multirracial pelos direitos políticos das mulheres. Mas, a cada tentativa, elas eram traidas, menosprezadas e rejeitadas pelas líderes do branco como leite movimento sufragista feminino. Tanto para as sufragistas como para as integrantes do movimento assossiativo, as mulheres negras eram seres meramente dispensáveis quando se tratava de conquistar apoio das brancas do Sul” (Davis, 1981, pág. 152/153)

Leia a matéria na íntegra aqui.