Só parte rica é priorizada, diz socióloga

05.09.2007

Folha de S. Paulo
Willian Vieira
A socióloga e pesquisadora da USP Mariana Fix acompanhou, em 1995, a retirada de parte dos moradores da favela na região da Berrini. A experiência foi descrita no livro "Parceiros da Exclusão" (Boitempo Editorial). Doze anos depois, ela ainda mantém laços com os moradores que ficaram e alerta para a falta de atenção do poder público com os pobres. Para ela, os recursos priorizam a parte rica da região.

FOLHA- Não é a primeira vez que um incêndio atinge essa favela. De quem é a culpa?

MARIANA FIX - Essa população é condenada a condições precárias de todo tipo -risco de enchente, incêndio-, que são tratadas pelo poder público como temporárias. Mas não são. Tem gente que mora ali há mais de 20 anos.

FOLHA- O que explica uma favela ao lado da Berrini, um símbolo de riqueza?

FIX - A favela se constituiu junto com a Berrini, e não à parte. Ela surgiu antes mesmo da Berrini, na época em que aquela era uma região distante e de pouco interesse imobiliário. Muita gente veio inclusive trabalhar na construção civil dos edifícios.

FOLHA- Esses moradores são mesmo excluídos da cidade?

FIX - Existe, sim, uma pressão para que eles saiam de lá, pressão do poder público e de grupos imobiliários. Mas esses moradores fazem parte da vida econômica da cidade e prestam serviços à região. Eles são mantidos em uma condição de ilegalidade, sem acesso a direitos sociais como pagar um advogado para requerer o usucapião [modo de adquirir propriedade pela posse pacífica e ininterrupta durante certo tempo], que facilmente conseguiriam.

FOLHA- Eles serão engolidos pela modernização da Berrini?

FIX - Sim. A verdade é que a expulsão deles gera ganhos imobiliários. A expulsão que ocorreu na gestão Maluf [quando parte dos moradores foi retirada da favela] foi brutal. Recursos obtidos por meio da Operação Urbana Água Espraiada, que deveriam ser aplicados em projetos sociais, foram desviados para a construção da ponte estaiada. Uma ponte que serve de chamariz para o mercado imobiliário. Ou seja, a parte rica da Berrini é que está sendo priorizada.