Rumo divergente de um Leitor de “O capital”

05.08.2017

Sul 21
Jorge Alberto Benitz

Alguns pontos na participação de José Arthur Giannotti no lançamento do livro Nos que amávamos tanto O capital: leituras de Marx no Brasil, editora Boitempo, surpreendem pelo simplismo. Uma demonstração daquilo que Norberto Bobbio diz acerca do poder da ideologia que, segundo este, tanto serve para apreender e desvelar a realidade como servir de obstáculo ao seu conhecimento. Em um dado momento de sua fala ele foi enfático afirmando que sempre que houve supressão da propriedade privada dos meios de produção o sistema entrou em crise. Como exemplo citou a União Soviética que segundo ele fez uma primeira tentativa e depois uma tentativa “na marra” e ambas não deram certo.

Completou este raciocínio afirmando que a indefinição do mercado é necessária para que haja ajuste entre a oferta e a demanda. Para ilustrar este problema do planejamento centralizado ele cita o caso hipotético, suponho, de uma indústria de fabricação de vidro cuja meta é posta em toneladas que, na sua visão, terá a produção de um vidro grosso demais e inviável para o  uso ao passo que se a meta for mensurada em metros quadrados o vidro será fino demais e, por consequência, quebrável e impróprio para o uso. Ele quis demonstrar deste modo, de forma genérica e resumida, o quanto é inviável uma indústria que não se paute pelas virtudes do mercado e seu primado concorrencial que resolve esta questão de modo muito mais com petente. Nesta toada ele passa por cima de fatos históricos que durante quatro ou cinco décadas do século passado demonstram a URSS disputando, ora ganhando ora perdendo, a primazia tecnológica em vários setores de ponta da tecnologia, em especial, a corrida espacial.

Esquece, também, que muitas das tecnologias de ponta das industrias dos países centrais do Ocidente foram baseadas em pesquisas feitas por organismos do Estado e só depois se destinaram a empresas privadas. Giannotti esquece deliberadamente, por igual, o salto econômico, a despeito de todas as atrocidades e malfeitos cometidos, dado em um país que teve crescimento econômico fantástico no socialismo real. Falsear dados de forma quase infantil para a defesa de sua ideologia é coisa corriqueira. O que não é corriqueiro é ver um filosofo e, como diz Roberto Schwarz, um dos professores que introduziram Marx na academia brasileira, tido como uma das cabeças pensantes mais brilhantes da academia se prestando a este maniqueísmo ideológico tão primário.

Confira o texto de Jorge Alberto Benitz.