Querem distribuição de renda? É preciso Estado, indústria e inovação

25.07.2017

GGN
Luiz Roque Miranda Cardia
A esquerda tem uma obsessão: a distribuição de renda. É uma obsessão justa, afinal de contas expressa o valor fundante do conceito de esquerda ainda na Revolução Francesa: a justiça social. Como se sabe, o real lema revolucionário burguês deveria ser Liberdade, Igualdade e Propriedade. A fraternidade servia apenas como retórica para unificar os pobres aos burgueses, que lutavam efetivamente pela liberdade de empresa, igualdade jurídica e defesa da propriedade. Dessa forma, a Assembleia Nacional Francesa se dividiu, ficando à esquerda do púlpito do orador os jacobinos que lutavam ferrenhamente pela justiça social. À direita ficavam os girondinos, defensores do direito dos ricos de ficarem mais ricos. No centro ficava o pântano, como era conhecido à época, o setor oportunista que apoiava o governo de plantão (é o que hoje conhecemos como PMDB, ou mais recentemente “centrão”). Ora, compreendo que a expressão “ser de esquerda” não se restringe à concepção iluminista originada na Revolução Francesa e que pode assumir significados muito diversos, no entanto considero relativamente seguro dizer que essa é origem histórica do termo e que continua sendo o seu uso corrente mais comum.
 
No Brasil, a luta por distribuição de renda é ainda mais dramática. Como desvendou Caio Prado Jr., a formação da sociedade brasileira é marcada pelo sentido da colonização, ou seja, não são apenas os pobres que servem aos ricos, mas a colônia que serve à metrópole. Mesmo após a independência, persiste a sofrida nação a servir às potências hegemônicas, primeiro Inglaterra, depois Estados Unidos. Persiste o sentido da colonização e o imperialismo mesmo após a industrialização, que significou o momento mais fértil e grandioso da pátria brasileira, seja na economia, na política ou na cultura, mas não foi suficiente para romper o sentido iniciado quatro séculos antes. Dessa forma, a desigualdade social no Brasil é muito mais profunda do que a mera luta de classes impõe no capitalismo, é a questão nacional que define a pobreza e violência que submete o povo brasileiro.
 
Portanto, a questão social não pode ser dissociada da questão nacional. São gêmeas siamesas, filhas do subdesenvolvimento. É aqui que a esquerda brasileira começa a se embananar.
 
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Se nosso valor central é a questão social, ou fraternidade, como diziam nossos ancestrais jacobinos, ou distribuição de renda, como diria um economista, devemos ter em mente o caminho para atingi-la socialmente, ou seja, enquanto sociedade, como projeto coletivo. Descartada a hipótese individualista de atingir a justiça social através da caridade, é preciso pensar no “como” distribuir renda. É isso que a esquerda brasileira não tem conseguido fazer, e por isso tem “apanhado” nas ruas dos neoliberais.(...)

Confira o texto de Luiz Roque Miranda Cardia.