Linguagem e ideologia do Império estadunidense

01.07.2010

Revista Espaço Acadêmico
Antonio Ozaí da Silva
“Neste momento, nós travamos a guerra de uma maneira muito mais bárbara que os próprios árabes. Atualmente é do lado deles que se encontra a civilização” (Tocqueville)

No período em que vigorou a guerra fria, a retórica ideológica estadunidense e das potências européias pautou-se pelo anticomunismo. Neste contexto, o comunismo foi identificado com o mal, o câncer a ser extirpado da sociedade ocidental capitalista, sob o risco de disseminar-se e aniquilá-la. O comunismo é apresentado como o inimigo a ser combatido com todas as armas. Na “cruzada do bem”, em nome da liberdade e da democracia, todos os meios são justificados – ainda que incompatíveis com os fins declarados.

Com a queda do muro de Berlim e o desmoronamento da URSS, inaugurou- se um novo contexto histórico no qual o discurso anticomunista perdeu força e foi reordenado a fim de justificar a dominação política e ideológica, amparado na crescente militarização e presença dos EUA. A linguagem ideológica imperial passa, então, por metamorfoses, às vezes sutis, que correspondem aos objetivos políticos e econômicos dos EUA, alçado à condição de uma espécie de Tribunal Santo Ofício com o poder de definir o bem e o mal, excomungar os hereges e mesmo os que vacilam em aceitar seu veredicto supremo.

A aceitação acrítica do léxico ideológico estadunidense não se pergunta sobre as origens, significados e contradições inerentes a um discurso que se pretende representativo do Ocidente cristão-judaico e de domínio universal. Nestas condições, predomina o maniqueísmo, do qual nem os críticos à esquerda estão isentos. Com efeito, ir além do mísero maniqueísmo e, simultaneamente, manter o foco crítico, sem concessão às pretensões universalistas da língua imperial, é um das maiores qualidades da obra A linguagem do império: léxico da ideologia dominante, escrita por Domenico Losurdo. 2

Qual é a linguagem do Império? Como o seu léxico cumpre uma função ideológica justificadora do seu domínio mundial? Quais seus objetivos? A julgar pelo discurso ideológico dominante, o mundo atual divide-se entre a barbárie e a civilização, terroristas e não- terroristas, o retrógrado e a modernidade, Oriente e Ocidente, a religião e cultura islâmica versus a religião e cultura cristã-judaica. Nesta forma maniqueísta de compreensão do mundo, os campos são bem definidos. A priori, não cabem dúvidas sobre quem são os bárbaros e quem representa a civilização e sobre o papel dos EUA enquanto paladino da cultura e civilização ocidental.

Domenico Losurdo, com maestria e uma escrita cativante, desvela as categorias centrais da ideologia da guerra sustentada pelos EUA e seus aliados. Fundamentado num trabalho de pesquisa extenso e minucioso, próprio dos grandes intelectuais que exercem a crítica sem cair na tentação panfletária e na inversão maniqueísta e simplista dos “mocinhos” contra os “bandidos”, o autor de A linguagem do império brinda o leitor com uma análise rigorosa da ideologia peculiar estadunidense. Dividido em sete capítulos, o autor inicia a obra com a análise crítica do terrorismo. Nos tempos atuais, essa palavra tornou-se central no léxico ocidental, e mais especificamente no vocabulário político-ideológico

estadunidense. Como enfatiza o autor: “Mas, como que se deve entender com tal termo? Não há nenhum esforço para esclarecê-lo. Quanto mais vaga a acusação, tanto mais fácil para sua validade se impor de modo unilateral e tanto mais apelável se torna a sentença pronunciada pelo mais forte” (LOSURDO, 2010, p.15).

A operação linguística levada a cabo pelos EUA desconsidera a própria história política-ideológica intervencionista, planos perpetrados pelos serviços secretos estadunidenses para eliminar persona non grata ao governo. E o que dizer, então, da política de Israel de “execuções extrajudiciais”? A licença para matar depende dos interesses políticos em jogo e de quem é santificado ou satanizado. Uma criança palestina, armada com pedras e em confronto com soldados israelenses em posse de armamento moderno, é classificada como terrorista; o mesmo não ocorre com o terrorismo de Estado praticado por Israel contra a população civil palestina. Prevalece a unilateralidade. Na retórica ideológica estadunidense, terroristas são sempre os outros, identificados como “bárbaros”. Os EUA e seus aliados detêm o poder de definir quem são os bárbaros e terroristas.

Domenico Losurdo analisa outras categorias centrais no léxico ideológico estadunidense: fundamentalismo, antiamericanismo, antissemitismo, antissionismo, filoislamismo e o ódio contra o Ocidente. De forma detalhada, rigorosa e exemplar, o autor de A linguagem do império examina criticamente cada um dos argumentos que envolvem estas categorias. À medida que avança em sua argumentação, evidencia-se a pretensão ideológica dos EUA, o engodo que tal ideologia oculta e su instrumentalização política no context de guerra.

Vejamos, por exemplo, a categori fundamentalismo. O termo é vinculad ao barbarismo, geralmente identificad com a reação do islamismo modernidade ocidental. No entanto, fundamentalismo surge no âmbito d protestantismo estadunidense – também devemos considerar sua versão judaic ortodoxa. Como esclarece o autor: “Tendo surgido no coração d Ocidente como autodesignaçã positiva e orgulhosa de si, categoria fundamentalismo é agor utilizada para rotular os “bárbaros colocados fora do Ocidente, o quais, na realidade, gostam de s apresentar como “islâmicos autênticos” (Id., p. 53). A acusação do Outro dissimula as vinculações entre fundamentalismo cristão e a política expansionista dos EUA e a ideologia subjacente a este que vê a nação e o povo estadunidense como “eleitos”, cujo “destino manifesto” é fazer valer os desígnios divinos – claro, interpretados por eles! Aos olhos de indivíduos como Bush Jr, a identificação EUA/Deus justifica a política de guerra no Iraque e Afeganistão. “Deus não é neutro diante do bem e do mal. Deus está com a América”, disse o então presidente Bush. E mais: “Deus é a favor da guerra!”; “Deus combate contra aqueles que se opõem a Ele e que lutam contra Ele e seus seguidores”.

3 Por outro lado, ao assumir a missão de salvar o Ocidente, os EUA parecem perplexos com o antiamericanismo que grassa entre os “bárbaros” e na Europa. A reação estadunidense e seus argumentos são exaustivamente analisados por Domenico Losurdo no capítulo III. Aqui, um detalhe a ressaltar: é interessante como o autor demonstra a simpatia da esquerda aos EUA (Marx, Lenin, Gramsci) e, por outro lado, da direita nazi-fascista encantada como os programas e a política racial praticada em relação aos índios e negros. Como se vê, a história é mais complexa do que parece ao ingênuo maniqueísta.

A mesma riqueza de exposição e análise é demonstrada pelo autor em relação às demais categorias elencadas acima. A acusação de antissemitismo, por exemplo, não pode fazer tabula rasa do papel desempenhado por uma personalidade como Henry Ford e sua obra O Judeu Internacional. Novamente, a categoria adquire conotação de instrumento político a ser brandido contra qualquer crítica à política dos EUA em relação ao conflito no oriente médio. Como destaca Losurdo:

“Acontece muitas vezes de sermos levados a calar as críticas à política de Israel (apoiada pelos Estados Unidos) considerando-as antissemitas. Mas agora se torna expressão de antissemitismo qualquer manifestação de intolerância em relação à expansão não só das colônias israelenses na West Bank, mas também as ambições imperiais expressas de forma cada vez mais claras por Washington” (Id., p. 124). Da mesma forma, a crítica antissionista tende a ser caracterizada como antissemitismo. A confusão das categorias é proposital, atende a objetivos políticos e ideológicos. As imbricações entre essas categorias, desde as origens do sionismo com Herzl, são exaustivamente analisadas na parte V da obra. É importante observar como, neste trajeto, a acusação se metamorfoseia. Segundo Losurdo, “...não tem sentido partir da polêmica anti-israelense e do antissionismo difundido no meio árabe e islâmico para fazer deste o herdeiro de uma loucura e de uma infâmia consumadas no Ocidente e em um contexto sem nenhuma relação com o atual conflito médio- oriental. A ideologia tradicional do colonialismo rotulava suas vítimas como bárbaros, agora os “bárbaros” se tornaram também “antissemitas” (Id., p.188).

Os “bárbaros”, na época do colonialismo ou hoje, devem ser largados à própria sorte. A ideologia estadunidense não admite qualquer manifestação de simpatia em relação às vítimas da sua política de guerra. “Entre os decretos de excomunhão agitados pela ideologia dominante, agora aparece o “filoislamismo”, afirma o autor (Id.).

Esta categoria é analisada no capítulo VI. Por fim, Domenico Losurdo faz uma análise perspicaz do ódio contra o Ocidente (Capítulo VII). Em suas palavras:

“As heresias ou os pecados mortais condenados pela atual ideologia da guerra resumem-se, em última análise, em uma única perversão infeliz: é a revolta contra o Ocidente, levada adiante pelo “fanatismo islâmico”, por terroristas “conscientemente antiocidentais, antieuropeus e antijudeu-cristãos” (Id., p.245).

Como admite o autor, é preciso enfrentar e analisar profundamente esta questão, mas sem o dogmatismo da ideologia unilateral e acusativa do Império. O Ocidente precisa se perguntar sobre suas ações diante do desafio expresso pela reação do mundo árabe e islâmico. “Mas por que o islã deveria respeitar e amar o Ocidente mais do que o Ocidente ama e respeita o islã?, questiona Domenico Losurdo.

A exemplo dos demais capítulos, o autor é especialmente feliz em oferecer ao leitor um painel histórico e analítico sobre as relações Ocidente-Oriente, o que se entende por tais categorias e como estas se metamorfoseiam historicamente. O Ocidente é uma categoria flexível cujas fronteiras são políticas, a depender dos interesses em jogo nos diferentes contextos históricos. Enfim, eis uma obra que merece ser lida por todos aqueles que intentam aprofundar a compreensão sobre a realidade mundial e os dilemas atuais. É um livro instigante, repleto de informações que contribuem para o esclarecimento sobre categorias essenciais na atualidade, mas apropriadas pela ideologia dominante. Para a crítica desta, é preciso, primeiro, estudá-la e compreendê-la – livre do simplismo panfletista e do maniqueísmo. Trata-se de uma obra crítica, à altura do que se espera de um intelectual que assim mereça ser designado.

* ANTONIO OZAÍ DA SILVA é professor do Departamento de Ciências Sociais, Universid Estadual de Maringá. Email: [email protected] Blog: http://antoniozai.wordpress.com