Contra a barbárie

01.08.2010

Retrato do Brasil
Flávio Dieguez
O mais recente livro do filósofo italiano Domenico Losurdo é uma pesquisa exaustiva sobre os métodos da política americana e um exemplo notável de análise política

Domenico losurdo é radical: onde se veem paz e ordem, ele mostra guerra e barbárie. Onde se lê justiça, ele escreve arbitrariedade. Marxista, ele diz que o objetivo do seu novo livro, lançado em maio passado em São Paulo, é denunciar a guerra declarada pelos EUA ao terrorismo mundial.

Mas o livro – A linguagem do império – Léxico da ideologia estadunidense (Boitempo Editorial) – interessa a uma parcela muito grande da opinião pública. Não é só um míssil contra o imperialismo americano, mas também uma defesa da tradição liberal e democrática, para a qual a linguagem é a própria ponte entre civilização e barbárie. Objetivos políticos à parte, a filosofia de Losurdo é um esforço quase braçal de examinar os acontecimentos para entender as palavras e as ideias que eles suscitam. Extraídos e expostos os significados práticos, pode-se então falar em razão ou em racionalidade. O oposto disso pode ser a palavra oca, o preconceito,o desentendimento. Não por acaso, Losurdo coloca na página de rosto do livro uma frase de um reverenciado pensador liberal, o francês Alexis de Tocqueville (1805-1859): “Neste momento, fazemos a guerra de uma maneira muito mais bárbara que os próprios árabes. Atualmente, a civilização está do lado deles”.

É oportuno, tendo em vista o atual clima de tensão, decorrente da crise mundial. E além disso é muito bem escrito. O leitor mal percebe que as análises envolvem mais de 2 mil anos de história intelectual, esmiuçada até o detalhe. Losurdo descomplica. Se um deputado é tirado da cama à noite, por soldados de ocupação de um outro país, não é razoável dizer que ele foi “preso”, que significa ser detido, acusado, julgado e encarcerado por instituições de seu próprio país.

Também não é razoável chamar de “heróis” – em vez de “terroristas” – soldados que matam mulheres e crianças indefesas de um país rendido. Ou chamar de “ditador” um presidente eleito. É simples assim. A conclusão flui com clareza porque o argumento é claro.

Os exemplos escolhidos são políticos. Pela ordem: a invasão do Líbano por soldados israelenses, em 2006; o bombardeio de Tóquio por soldados americanos, em 1945; e a cobertura da imprensa americana e europeia sobre o governo do venezuelano Hugo Chávez desde 1998. O argumento é indiscutível. É possível discutir as escolhas. Politicamente, Losurdo afirma que o mau uso das palavras – um fato que ele procura demonstrar por meio da pesquisa atual e histórica – decorre da tentativa dos governos americanos e de seus aliados de justificar a submissão que impõem ao mundo.

Resistência Latino-americana

Domenico Losurdo defendeu, no Brasil, formar um bloco político internacional para se opor ao domínio dos países industrializados

O colonialismo é uma herança que persiste em várias partes do mundo, e atualmente existe um movimento forte voltado contra esses restos de dependência colonial em muitos países, inclusive na américa latina. O italiano Domenico losurdo falou da política no continente, em Fortaleza, em uma das palestras que fez no Brasil quando veio lançar seu novo livro, em maio.

Losurdo acredita que muitos países sul-americanos procuram diminuir sua dependência econômica com relação aos países desenvolvidos, em particular aos EUa. Esse movimento tem uma linha geral anti-colonialista e antiimperialista. segundo o sociólogo e jornalista luiz carlos antero, do Portal Vermelho, losurdo defendeu formar-se um grande bloco político internacional para se contrapor à atual ordem social, econômica e política. De acordo com antero, losurdo enfatizou que considera viável, atualmente, a formação de bloco. Ele teria apontado como meta imediata combater o “imperialismo dos direitos humanos” e a islamofobia, referência a dois eixos da política externa dos EUa, atualmente.

A formação desse bloco, porém, depende da reorganização dos particdos comunistas. Eles precisariam “recuperar o orgulho de sua própria história” e reforçar sua capacidade de fazer análises concretas da situação concreta”.

Losurdo considera que a influência dos EUa na américa latina ficou muito comprometida pelas medidas que visavam “isolar, difamar, sufocar e liquidar a revolução cubana”, conforme o relato de antero. sinal dssa crise da diplomacia americana seriam as mudanças políticas recentes no continente, na Venezuela, Bolívia, Equador, Brasil, nicarágua e Paraguai. com a china é uma forma de enfrentar as dificuldades econômicas que se colocam diante de todo país em busca da independência. seria como criar alternativas de comércioe de desenvolvimento tecnológico, caso os países industrializados, politicamente dominantes, procurem isolar economicamente os países aspirantes à independência.

A importância da questão econômica no movimento dos países latino-americanos, de acordo com losurdo, transparece claramente, por exemplo, no mote lançado pelo vice-presidente boliviano Álvaro Garcia linera: “industrialização ou morte”. Para linera a industrialização seria o meio de concretizar “o desmoronamento progressivo da dependência econômica colonial”.

O resumo, que ele mesmo apresenta, é bem simples: “Quem pensa nos EUA como uma superpotência exclusivamente militar entendeu bem pouco da situação”, escreve ele. Os EUA quereriam, agora, ser os “preceptores da humanidade”. Têm a pretensão de “erguer-se como juiz universal, um juiz que, além do mais, dita as regras do discurso e os pecados”.

São “decretos de excomunhão”, que atingem, primeiro, os “países tratados como bandidos por Washington, mas mantêm na mira de tiro os próprios aliados relutantes”. Losurdo examina essa situação garimpando a linguagem americana sobre valores que os EUA consideram universais.

“A mais antiga democracia do mundo”, “a nação escolhida de Deus”, “deve continuar a guiar o mundo”. Só por isso já se revela a pretensão incongruente, diz o filósofo.

“Na realidade, essa visão, com base na qual há um único povo ao qual cabe o privilégio eterno de guiar [...] é a própria negação da ideia de igualdade e de democracia nas relações internacionais.” Esse tipo de argumento, apenas, embora forte, não basta politicamente.

Indiferentes à razão

Muitas correntes de pensamento, atualmente,são indiferentes à razão ou hostis a ela, e uma parte da opinião pública reflete essa maneira de pensar. Losurdo não polemiza nesses termos. Concentrase em pesquisar, levantar fatos e declarações para construir uma teia sólida de evidências.

“Este livro quer ser uma contribuição para a definição, no plano histórico e filosófico, das categorias centrais da atual ideologia da guerra.” As categorias são sete, os sete capítulos do livro: “terrorismo”,“fundamentalismo”, lantiamericanismo”,“antissemitismo”, “antissionismo”,“filoislamismo”e “ódio contra o Ocidente”.

São os sete elementos sintáticos do domínio imperial. Têm também força religiosa, na opinião de Losurdo: são pecados a punir. Terrorismo “quer dizer o quê?”, pergunta Losurdo. Se o serviço de inteligência dos EUA, a CIA, mata alguém alegando defender os EUA ou os interesses dos EUA, não se acha que é terror.

Mesmo quando o plano do crime, de acordo com uma semântica não imperial, é exposto em detalhes pela imprensa. O caso típico é Fidel Castro, um dos alvos preferidos da CIA, que se procurou envenenar com toxinas no charuto, bactérias no lenço ou contratando a máfia, conforme se divulgou exaustivamente pelos jornais e revistas americanos, desde os anos 1960.

Mas não se acha na imprensa, nesses casos, uma só palavra de condenação moral pelo ato de terrorismo, observa Losurdo. Ao contrário: o diário americano International Herald Tribune, por exemplo, deu com alegria, em 2002, que a CIA gastou dinheiro para achar quem matasse o iraquiano Saddam Hussein.

E isso se repete por décadas e décadas. Desde 1950, a CIA teria caçado o russo Joseph Stalin, o guatemalteco Jacobo Arbenz, o congolês Patrice Lumumba, o indonésio Sukarno e outros. É o que afirma Evan Thomas no livro The very best men: four who dared: the early years of CIA. Mas o autor admite, sem ressalva, o pressuposto da CIA “de que todo meio é lícito quando se trata de desembaraçar-se dos ‘cães raivosos’”. Em situação mais cotidiana, um telepregador americano, “Pat Robertson, de inabalável fé cristã e norte-americana”, aconselha eliminar fisicamente o venezuelano Chávez. Depois ele tenta se desdizer, conta Losurdo, mas, lembra este, o fato é que o presidente George W. Bush nem disse que não. Disse que não era “apropriado”.

Entende-se que, caso fosse, se levaria a proposta a sério. Tanto que, em outros casos, teria sido realmente levada a sério, a julgar por outra reportagem do Herald Tribune, desta vez sobre o presidente John Kennedy, nos anos 1960. Ele teria concordado com o assassinato do seu ex-aliado, o mandarim vietnamita Ngo Dinh Diem. Razão política Kennedy não é considerado terrorista por isso, mas um campeão da democracia. Daí se depreende que a justificativa do qualificativo não é vernacular nem racional, mas política e ideológica.

Pressupõe que os EUA, por definição, não cometem crimes, mas, ao contrário, aplicam a lei. O uso de palavras distintas para designar os mesmos atos, ou, viceversa rir as circunstâncias de um fato ou uma declaração. E não apenas nesse último livro, como sugere um excelente artigo do historiador de literatura Alfredo Bosi, da Universidade de São Paulo.

Ele diz que “a regra de ouro” de Losurdo “é historicizar sempre, isto é, analisar os papéis efetivos que os diversos grupos políticos exerceram em nome de ideias e ideais liberais”. Bosi fez essa observação num artigo de 2007 na revista Estudos avançados sobre o livro Contra-história do liberalismo, que Losurdo publicou no Brasil em2006. “Se há um objetivo que Losurdo persegue [...] é o de preferir o exame das políticas liberais ‘em sua concretização’ ao engessamento em definições genéricas pelas quais o termo ‘liberalismo’ se toma como uniforme e abstrata doutrina.”

Essa maneira de trabalhar é de origem marxista; foi exposta com clareza por Marx no livro A ideologia Alemã. Ela pode ser criticada e tem sido criticada por grandes autores. Mas é um método cuidadoso e não é fácil achar uma outra maneira de entender o labirinto político, cultural e histórico contemporâneo.

Estado religioso

Basta ver as discordâncias radicais em relação ao Irã. Como se deve entender a mistura entre o poder religioso e o republicano, à primeira vista imisturáveis, do regime iraniano? Em nome de que valores se pode combatê-la ou defendê-la de maneira consistente? Losurdo aponta flutuações fortes até na construção político-ideológica, na maneira como o poder americano vê a si mesmo. Ele lembra que os japoneses indefesos de Hiroshima e Nagasaki, dizimados pelo incêndio nuclear, são agora, às vezes, vistos como vítimas de um “bombardeio terrorista. Não dos valores, masdo terror de Estado dos EUA.

Existe mesmo uma revisão das versões que os EUA sustentaram longo tempo sobre a Segunda Guerra Mundial e especialmente sobre a Guerra da Coreia. Arquivos abertos nos últimos dez anos mostram que o comando americano mandou atirar em sul-coreanos civis em 138 ocasiões.

Há comissões, inclusive com a participação de americanos, avaliando pedidos de indenização das vítimas. A Guerra da Coreia, na conjuntura atual, é um elo fraco no argumento americano de que sempre intervém em outros países em defesa da democracia.

E essas flutuações sempre existiram, diz Losurdo, citando um historiador americano de prestígio, Gar Alperovitz, para o qual as bombas jogadas no Japão visavam de fato à ex-União Soviética, como um sinal do que os EUA estavam dispostos a fazer para assegurar seus interesses. Alperovitz diz que oficiais americanos tentaram dissuadir o presidente Harry Truman de usar uma arma “bárbara”, que atingisse “mulheres e crianças”. A mesma oscilação de ponto de vista se vê em episódios recentes.

Zbigniew Brzezinski, ex-assessor do presidente Jimmy Carter, disse que, em 2006, quando respondeu a um ataque do Hezbollah libanês, Israel estava “usando civis libaneses como reféns”. Rompeu com a explicação usual de que Israel, país democrático, recorre à força para se defender da agressividade autoritária dos vizinhos.

Choque de culturas

As dificuldades crescem à medida que se fazem análises mais intricadas. Losurdo considera , por exemplo, um problema semelhante ao do regime iraniano ao analisar diferentes formas de entender a questão judaica. Ele diz que é preciso achar critérios objetivos, esclarecer ao máximo as categorias de classificação. Existe um antijudaísmo, como o do francês Voltaire, por exemplo, que critica os aspectos religiosos e culturais. É muito diferente da judeufobia dos ideólogos do nazismo, ou do antissemitismo mais genérico, representando um preconceito contra judeus e árabes.

A avaliação de Losurdo, nesse caso, é que Voltaire foi severo com a tradição e a cultura judaicas, mas ateve-se a uma crítica legítima, ainda que não necessariamente correta. Reflete uma análise cuidadosa dos fatos. Esse tipo de problema, hoje tão preeminente, exige cuidado especial. “Quando nos deparamos com um conflito no qual se chocam culturas diferentes e em estágios diferentes de desenvolvimento, uma tendência bastante difusa se poupa o cansaço da análise concreta para enfileirarse imediatamente com o contendente que encarna ou parece encarnar a cultura mais moderna e mais avançada.”

A recusa à preguiça faz de A linguagem do império um dos livros mais interessantes publicados recentemente em sua área. É ler e aprender na certa.