Altíssima pobreza

Regras monásticas e forma de vida [Homo Sacer, IV, 1]

Giorgio Agamben

Coleção Estado de Sítio

R$ 42,00

Em Altíssima pobreza, Giorgio Agamben aprofunda as reflexões sobre o universo sacerdotal iniciadas em obras anteriores da série Homo sacer e se lança em uma pesquisa sobre as regras monásticas, ou seja, a obediência a um conjunto de comportamentos, princípios, hierarquias e hábitos, práticas repetidas todos os dias para marcar o tempo da comunidade. O filósofo italiano propõe uma rigorosa genealogia das formas monásticas, originárias da Idade Média, relacionando-as às liturgias, à vida comum, às instituições de poder, para construir um duplo caminho: em um profundo mergulho na histórica do pensamento religioso, o autor nos remete diretamente aos dilemas do contemporâneo.

Nesse estudo fascinante, o autor reconstrói em detalhes a vida dos monges, de Pacômio a São Francisco, para abordar duas dimensões da vida, geralmente apresentadas como contrapostas: o ser e o parecer. O objetivo principal ao analisar o caso exemplar do monasticismo é a tentativa de construir uma forma-de-vida, “ou seja, uma vida que se vincule tão estreitamente a sua forma a ponto de ser inseparável dela”, afirma nas primeiras linhas do prefácio. É nessa perspectiva que a investigação se confronta sobretudo com o problema da relação entre regra e vida, que define o dispositivo pelo qual os monges tentaram realizar seu ideal de uma forma de vida comum, na qual tanto “regra” quanto “vida” perdem seu significado ordinário para apontar na direção de uma terceira via.

Para compreender a forma de vida monástica, o experimento crucial da investigação é a análise dos movimentos espirituais dos séculos XII e XIII, que culminaram no franciscanismo, ao qual Agamben dedica grande parte do livro. A aspiração originária dos franciscanos era reivindicar uma vida e não uma regra, uma forma vitae e não um sistema mais ou menos coerente de ideias e doutrinas – ou, mais precisamente, propor uma pura e simples identificação do texto sagrado com a vida, como se mais do que ler e interpretar o Evangelho, quisessem apenas vivê-lo. Com os franciscanos elabora-se uma vivência em comum pela indiferenciação entre vida e regra: uma forma de vida que não é doutrina, nem conselho, nem moral, nem ciência, nem lei, mas funciona como o cânone de uma comunidade. Por tais movimentos não situarem sua experiência central no plano da doutrina e da lei, mas no da vida, se apresentam no momento decisivo e de maior tensão na história do monasticismo.

Com a escolha da "altíssima pobreza" para definir a vida de seus seguidores, o movimento dos franciscanos subverte a esfera do direito ao abdicar de todo direito, tanto de propriedade quanto de uso, conservando apenas o simples uso de fato sobre as coisas. Essa atitude cria um conflito com o clero secular e a Cúria, sob o pontificado de João XXII, que afirma a inseparabilidade entre uso e propriedade. "Contudo, a atenção dos estudiosos focalizou-se de tal maneira na história da ordem e de suas atormentadas relações com a Cúria que raramente houve quem procurasse analisar no plano da teoria o que estava em jogo nesses conflitos. Para além da diversidade das posições e da sutileza dos argumentos teológicos e jurídicos dos franciscanos que intervêm na controvérsia, o princípio que, do início ao fim, se mantém inalterado e inegociável para eles pode ser resumido nos seguintes termos: o que está em questão, seja para a ordem, seja para seu fundador, é a abdicatio omnis iuris, isto é, a possibilidade de uma existência humana fora do direito", escreve Agamben.

Pensar a vida como aquilo de que nunca se dá propriedade, mas apenas um uso comum, é, para o filósofo, o legado mais precioso do franciscanismo com o qual, tantas vezes, o Ocidente voltará a confrontar-se como se fosse sua tarefa indeferível.