Margem Esquerda n.22

Dossiê: 50 anos do Golpe de 1964

Alex Callinicos,István Mészáros,Michael Löwy eMiguel Urbano Rodrigues, entre outros

Revista Margem Esquerda Coleção Dia da mulher é dia da luta feminista! PROMOÇÃO

R$ 30,00

Em 2014 rememoram-se cinquenta anos do golpe militar que em 1º de abril de 1964 instaurou uma ditadura no Brasil. Margem Esquerda soma-se às muitas tentativas de compreensão desse evento, das dinâmicas internas que levaram às crises do começo da década de 1960 às interferências internacionais que o provocaram. Adotando perspectiva interdisciplinar, Angélica Lovatto, Antonio Carlos Mazzeo, Beto Almeida e Milton Temer analisam, no Dossiê, o caráter do golpe, a participação de amplos segmentos da sociedade brasileira na conspiração, o significado da transição, o papel de João Goulart, a censura às publicações de esquerda. Textos que ajudam a traçar um painel da situação econômica, política, social e cultural do Brasil ao longo dos “anos de chumbo”.

O entrevistado deste número é o historiador, cientista político e jornalista Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira. Autor de livros que se tornaram referência no Brasil e no exterior, como o clássico O caminho da revolução brasileira, Moniz Bandeira esteve presente em alguns dos mais importantes acontecimentos do país a partir da década de 1950. Foi um dos principais fundadores e dirigentes da Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop), o que resultou em sua prisão, pelo Centro de Informações da Marinha (Cenimar), e posterior exílio. Na entrevista concedida da Alemanha, onde mora, a Emir Sader, Luiz Bernardo Pericás e Paulo Barsotti, ele conta fatos de sua história, da militância política e intelectual, da relação com João Goulart, Leonel Brizola, Ênio Silveira e Nelson Werneck Sodré, entre tantos outros. Polêmico, suas opiniões são muitas vezes contestadas, às margens direita e esquerda do rio.

Na seção Documento encontra-se uma joia rara: a série de artigos “O Programa da Aliança Nacional Libertadora”, do historiador comunista Caio Prado Júnior. Originalmente publicados entre os dias 25 de julho e 3 de agosto de 1935 no jornal A Platéa – e republicados em 1982 na revista Escrita/Ensaio –, esses textos refletem sobre as principais premissas do programa aliancista, tais como a campanha anti-imperialista, a transformação do sistema agrário e da estrutura econômica do país, entre outros.

Este número da revista traz ainda artigos do filósofo húngaro István Mészáros, que discorre sobre a necessidade do estabelecimento de uma Nova Internacional, em que a ordem reprodutiva societal seja sustentável; de Michael Löwy, sobre os artistas revolucionários Diego Rivera (1886-1957) e Frida Kahlo (1907-1954), cuja obra Löwy classifica como “autenticamente subversiva”; e de Alex Callinicos sobre a posição ocupada por David Harvey no seio do marxismo – segundo o autor, “qualquer apreciação histórica do desenvolvimento da teoria marxista no fi nal do século XX daria a Harvey um dos primeiros lugares”.

Homenagens foram prestadas ao cineasta Eduardo Coutinho, expoente entre os documentaristas da atualidade e um dos mais sensíveis intérpretes da sociedade brasileira, e a Henri Aleg, jornalista e integrante por longa data dos partidos comunistas da Argélia e da França. Na voz do cineasta Felipe Bragança e do jornalista e escritor português Miguel Urbano Rodrigues, Margem Esquerda confere honras a esses dois grandes personagens da vida política e cultural.

Outro grande revolucionário é homenageado nesta edição: o guerrilheiro baiano Carlos Marighella, cuja biografia é resenhada pelo historiador Gilberto Maringoni. Constam ainda deste número resenhas e notas de leitura de Fabio Mascaro Querido, Pablo Polese e Felipe Quintino (esta sobre Livros contra a ditadura: editoras de oposição no Brasil, 1974-1984, de Flamarion Maués).

As imagens, em curadoria de Sergio Romagnolo, são do artista plástico Antonio Henrique Amaral, que se notabilizou por suas pinturas alegóricas com bananas. Segundo Romagnolo, esta foi a forma encontrada por ele para driblar a ditadura e denunciar os horrores da tortura. Inicialmente, suas bananas apareciam verdes, em cachos, mais tarde tornaram-se amareladas, espetadas por garfos. Cordas e garfos surgem furando e amarrando as frutas já maduras e manchadas de preto. Numa fase posterior, tem-se a impressão de ver os pedaços mastigados dos alimentos que mais tarde, terminada a ditadura, parecem pedaços de matéria voando e se desgarrando uns dos outros. As obras vistas neste número são algumas das mais metafóricas e insólitas, que representam os anos mais duros da tortura. Por fim, fechando a revista, temos o poema “Os estatutos do homem”, de Thiago de Mello, renomado poeta brasileiro, perseguido durante a ditadura e forçado a sair do país. Com essa poesia empreendemos, nas palavras do editor da seção, Flávio Aguiar, “a homenagem de Margem Esquerda ao poeta e a todas e todos que se empenharam contra uma das páginas mais repressivas da história do Brasil”.