Trabalho e subjetividade

O espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório

Giovanni Alves

Coleção Mundo do Trabalho

R$ 38,00

Com olhar crítico sobre as novas tendências no ambiente de trabalho, Giovanni Alves desvenda em seu novo livro um tema crucial na reestruturação produtiva do século XXI: a subjetividade do homem que trabalha. Resultado de um profundo estudo sobre as engrenagens de envolvimento e sujeição do trabalhador no espaço laborativo e os processos de produção, o livro Trabalho e subjetividade revela as influências de uma nova modalidade no mercado: a “empresa enxuta” ou “flexível”.

Em substituição à coisificação típica da produção maquinal do taylorismo-fordismo, que formou a chamada sociedade do automóvel durante o século XX, surge uma nova lógica de controle e organização do trabalho, designada pelo autor como a “captura” da subjetividade. Nesse contexto, Alves aponta um intenso movimento de valores da empresa para a vida social e da vida social para a empresa, um impregnando o outro.

Essa nova planta produtiva, baseada no toyotismo, combina ampliação do maquinário técnico-científico-informacional, intensa exploração do trabalho, aumento da informalidade e perda de direitos, e é capaz de se apropriar ainda mais efetivamente do intelecto do trabalho, utilizando conceitos cada vez mais presentes na realidade do trabalhador. Como aponta Ricardo Antunes, orientador do estudo e coordenador da coleção Mundo do Trabalho, da Boitempo Editorial, “as ‘células produtivas’, o ‘trabalho em equipe’, os círculos de controle de qualidade, as polivalências e as multifuncionalidades, as metas e as competências, os ‘colaboradores’, os ‘consultores’, os ‘parceiros’ são denominações infernais cuja substância se encontra na razão inversa de sua nomenclatura”.

Os estudos de Alves também revelam novos conceitos e críticas relacionados à psicologia das pulsões no trabalho e a um sistema de controle do metabolismo social, que articula em si e para si, de modo contraditório, mente e corpo do homem que trabalha. Muito utilizada por István Mészáros, depois de Marx, a noção de metabolismo social é ponto de partida para Alves organizar, no plano teórico, importantes elementos que explicam as novas conformações da reestruturação produtiva do capital no século XXI. Para isso, sugere algumas categorias novas como sociometabolismo da barbárie, cooperação complexa, Quarta Revolução Tecnológica, valores-fetiche, expectativas e utopias de mercado, inconsciente estendido e compressão psicocorporal, salientando as implicações corporais da desefetivação do trabalho vivo no capitalismo flexível, com a disseminação da doença universal do estresse.

O economista e presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcio Pochmann, afirma a contribuição fundamental da obra de Alves como contraponto na literatura especializada, ainda muito comprometida com a oferta de visões amenas das configurações atuais. Segundo ele, a partir de Trabalho e subjetividade, o leitor tem condições de compreender a reconfiguração pela qual passou o mundo do trabalho. “O conhecimento dessa realidade constitui inexorável parcela no desejo de sua transformação, sobretudo se acreditamos que outro mundo ainda é possível”, conclui Pochmann.

Trecho

"O que nos interessa salientar é a afinidade compositiva entre sociometabolismo da barbárie (o complexo social de dessocialização e desefetivação do ser genérico do homem que surge a partir da degradação ampliada do mundo do trabalho) e vigência da acumulação por espoliação, principalmente no plano do metabolismo social. As práticas sociais da acumulação por espoliação, o conjunto de coerções e apropriações de capacidades, relações sociais, conhecimentos, hábitos de pensamento e crenças (o que André Gorz irá denominar, ao tratar do trabalho imaterial, de “saber cotidiano”), além da apropriação e da cooptação de realizações sociais e culturais as mais diversas, constituem hoje elementos das inovações sociometabólicas do capital. Elas sedimentam a sociabilidade da predação e a cultura do medo que constitui um ambiente social (e emocional) propício para os novos consentimentos espúrios pressupostos do novo modelo produtivo.

Portanto, uma de nossas hipóteses é que existe um vínculo orgânico entre acumulação por espoliação e as novas práticas empresariais de “captura” da subjetividade do trabalho vivo e da força de trabalho, com destaque para a ampla gama de mecanismos organizacionais de incentivo à participação e envolvimento de empregados e operários na solução de problemas no local de trabalho. A apropriação/espoliação da criatividade intelectual (ou emocional) não apenas de empregados e operários, mas de clientes, consumidores e usuários de produtos e serviços instigados a “agregar” valor à produção da mercadoria são exemplos da sociabilidade de predação que caracteriza o metabolismo social do capitalismo global.

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