O conceito de dialética em Lukács

István Mészáros

Coleção Mundo do Trabalho

R$ 39,00

O conciso ensaio que dá título a este livro do filósofo húngaro István Mészáros – redigido originalmente entre 1967 e 1968 – é considerado pelo especialista e professor da UFRJ José Paulo Netto “um dos melhores e mais criativos estudos já publicados sobre a concepção de dialética que se articula e se desenvolve no conjunto da obra de György Lukács”.

Com a intenção de facilitar o estudo da obra multiforme e altamente complexa de Lukács, Mészáros instaura uma matriz interpretativa para o trato do pensamento do filósofo conterrâneo e analisa criticamente seu legado. A perspectiva de Mészáros é privilegiada, pois, do final da década de 1940 e até a morte de Lukács, em 1971, cultivou uma relação ímpar com o seu mestre. “O inicialmente jovem discípulo desenvolveu um trabalho teórico que combinou o reconhecimento da grandeza teórica e humana de Lukács com uma vigorosa autonomia intelectual”, afirma Netto, autor da Apresentação na edição brasileira.

Segundo Mészáros, os problemas da dialética ocupam um lugar central no pensamento de Lukács. Isso porque Lukács combateu o predomínio do “marxismo vulgar” no movimento organizado da classe trabalhadora, os ataques dogmáticos à dialética e às glorificações do materialismo mecanicista. Assim, preocupou-se constantemente em defender a validade metodológica universal da abordagem dialética. 

Fazer um relatório detalhado das ideias de Lukács sobre os vários aspectos da dialética surge como um desafio diante do qual muitos analistas, mesmo os mais dotados e sérios, se mantém desarmados, visto que a obra do filósofo húngaro – resultado de sete décadas de atividade febril – aspirou a uma síntese sistemática e universalizante, contida em milhares de páginas sobre história, política, economia, história da filosofia, história da estética, história da literatura, epistemologia, estética, ética, sociologia, questões partidárias, políticas culturais, ideologia etc. Cabe assim a Mészáros essa difícil tarefa, e sua formação e desenvolvimento intelectual, segundo Netto, “demonstram cabalmente que ele é um ponto ‘fora da curva-padrão’ da intelectualidade contemporânea, tendo reunido na sua trajetória, as melhores condições para enfrentar o desafio de tomar como objeto o conjunto da obra de Lukács: constituiu-se como um ‘sujeito culturalmente rico’, apetrechado para dar conta da riqueza do universo teórico-categorial lukacsiano”. 

Para Mészáros, o pensamento de Lukács é uma unidade que se constitui de mudança e continuidade. “Ao cabo de cada estágio de desenvolvimento da reflexão de Lukács, a ‘ideia sintetizadora fundamental’ permanece, mas se repondo e se movendo em outro e novo nível. Tal ‘ideia sintetizadora fundamental’, que determina a estrutura essencial do pensamento lukacsiano, é, na original análise de Mészáros, a dramática tentativa de Lukács para superar a dualidade entre Sollen (dever-ser) e Sein (ser) – que poderia ser enunciada como entre dever ser e prática social objetivamente viável (ou também, entre imperativo para realizar uma vida humana plena de sentido e faticidade histórica)”, afirma Netto. “Toda a qualidade deste ensaio de Mészáros reside, no fim das contas e a meu juízo, no seu caráter seminal: ele instaura uma perspectiva de crítica (original e radical) a Lukács realmente fecunda, que instiga a polêmica, fornece pistas para a formulação de novas hipóteses relativas à sua obra, fomenta e propicia outras abordagens –, e isso independentemente de concordarmos ou não com a posição do autor. Não são frequentes as elaborações ensaísticas com tal caráter”. 

O presente volume é enriquecido por vasto material de apoio, em forma de notas explicativas, dados biográficos, caderno de ilustrações, bibliografia, índice remissivo e dois apêndices: o ensaio “György Lukács: a filosofia do ‘tertium datur’ e do diálogo coexistencial”, assinado por Mészáros em 1957, inédito no Brasil; e o artigo crítico “A verdade de uma lenda”, publicado no New Statesman, em 1971. O conceito de dialética em Lukács é a 13ª obra de Mészáros que a Boitempo publica. Do próprio Lukács a Boitempo tem recuperado os principais escritos, em obras traduzidas dos manuscritos originais, incluindo Prolegômenos para uma ontologia do ser social (2010) e O romance histórico (2011); este ano a editora publica ainda o segundo volume do seminal Para uma ontologia do ser social – o primeiro tomo é de 2012.

Trecho do livro

“É sempre perigoso, se não arbitrário, dividir os filósofos em “o jovem X” e “o maduro X”, visando opor uma divisão à outra. Os principais contornos de uma ideia sintetizadora fundamental podem – e devem – estar presentes na mente do filósofo quando ele elabora, em uma escrita particular, algumas de suas implicações concretas em contextos particulares. Essa ideia pode passar, é claro, por mudanças significativas; os próprios contextos particulares requerem constantes reelaborações e modificações em consonância com as características específicas das situações concretas que têm de ser levadas em conta. Mas até mesmo uma conversão genuína do “idealismo” para o “materialismo” não implica necessariamente uma rejeição ou repressão radical da ideia sintetizadora original. Um bom exemplo no século XX é György Lukács. Suas obras pós-idealistas revelam, na abordagem de todos os grandes problemas, a mesma estrutura de pensamento, embora ele tenha genuinamente deixado para trás seus posicionamentos idealistas originais. No entanto, aqueles que não conseguiam distinguir entre a estrutura geral do pensamento de um filósofo e sua articulação idealista ou materialista insistiram que ele “permaneceu sempre um idealista hegeliano” e, de acordo com suas próprias preferências, idealizaram-no ou culparam-no por isso. Ao fazê-lo, também ignoraram implicitamente o fato de que o próprio Marx foi revolucionário muito antes de se tornar materialista, e não deixou de sê-lo posteriormente. É desnecessário dizer que a continuidade em questão é dialética: “a unidade entre continuidade e descontinuidade”, isto é, a “suprassunção” (Aufhebung) de um estágio anterior em uma complexidade cada vez maior. Não obstante, deve-se enfatizar que é impossível haver originalidade sem essa unidade – relativa, dialética – de pensamento no que se refere à sua estrutura geral. Pois a precondição de qualquer síntese é algum tipo de síntese como princípio ativo de seleção da primeira, mesmo que a nova síntese aparentemente não tenha nada a ver com a síntese inicial. Como diz Goethe, ‘para que possamos ser algo, já é preciso ser algo’, o que se aplica não menos ao filósofo do que ao artista ou a qualquer outra pessoa. É por isso que não se pode entender devidamente o pensamento de um filósofo sem passar por suas muitas camadas até atingir a síntese original que o estruturou, dialeticamente, em todas as suas sucessivas modificações.”