Até o último homem

Visões cariocas da administração armada da vida social

Felipe Brito ePedro Rocha de Oliveira (orgs.)

Coleção Estado de Sítio

R$ 49,00


"A população pode ficar tranquila, porque a ordem será mantida.
Vamos cumprir nossa missão constitucional até o último homem."


Roberto Precioso, ex-secretário de
Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro

Fruto de uma promissora fornada de jovens intelectuais de esquerda que buscam novas bases teóricas para a crítica social, Até o último homem: visões cariocas da administração armada da vida social, organizado por Pedro Rocha de Oliveira e Felipe Brito, analisa o processo de “legitimação” das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em um quadro de colapso e dissolução da sociedade perante a ocupação militar das favelas cariocas. O Rio de Janeiro aparece como primeiro sintoma de que o desenvolvimentismo ufanista do Brasil nos anos 1950 e 1960 não poderia ir além do fracasso de sua própria autoimagem: “um país do futuro em ruínas”. Para os autores, a invasão militar das favelas cariocas é emblemática: as UPPs revelam o modus operandi da gestão do desmoronamento da sociedade brasileira pelo exercício de um poder político fundamentado na persuasão por meios bélicos. Em um quadro pautado por megaeventos, valorização imobiliária e formação de milícias, o Rio de Janeiro parece revelar as tendências mais macabras da política nacional. À sombra do mito desenvolvimentista, a cidade deixou de ser a “velha caixa de ressonância nacional”  na qual se jogavam lances decisivos da política do país , para tornar-se um “implacável laboratório de gestão da barbárie”.

Retraçando a trajetória da presença do exército nas ruas, da Operação Rio à ocupação do Complexo do Alemão, a coletânea revela aos poucos a relação entre a militarização da segurança pública e a militarização da vida cotidiana. No paradigma da ocupação permanente posto pelas UPPs, “a oposição entre estado de direito e estado de exceção é resolvida numa unificação”.

O aparente sucesso da implantação das UPPs surge como agravante de uma reestruturação das formas de operação do crime. As políticas de ocupação permanente têm como saldo o estilhaçamento, e não o fim da venda de drogas ilegais, que continua a funcionar nas favelas ocupadas pelas UPPs, sob formas renovadas, como meio de corrupção: “A crise tornou os ‘comandos’ da droga mais fragmentados, irracionais e autodestrutivos. Eles deixam de representar uma alternativa econômica, ainda que perigosa e ilegal, e tendem a se tornar núcleos de pura violência.”

A dificuldade em definir um horizonte emancipatório manifesta-se de forma mais surpreendente na questão urbana. Se o aumento irrestrito de favelas já era sintoma conhecido do sucateamento do planejamento público, programas como o Favela-Bairro e o estímulo do “empreendedorismo dos pobres” levam o problema a um novo patamar. À medida em que a favela é aceita como modelo dominante de organização espacial, ela se torna cada vez mais suscetível a processos de racionalização interna, repondo as tensões da “gentrificação” e da valorização imobiliária. O resultado é um processo generalizado de “favelização da cidade”. O comentário afiado sobre produtos culturais recentes, do funk ao cinema nacional, é a pedra de toque dessa análise original da realidade brasileira. A leitura crítica dos ditos “filmes de favela” irá mostrar como Tropa de elite, Tropa de elite 2, Cidade de Deus, 5x favela e Salve geral, não são apenas parte de um processo de espetacularização da miséria e da violência, em sintonia com as políticas de marketing das cidades, mas, também, peças fundamentais na constituição do imaginário nacional.

Trechos do livro

“Com o falatório em torno da `pacificação`, o discurso dominante reduz o crime à sua dimensão mais visível e espetacular, o conflito aberto, enquanto a favela permanece estigmatizada como território de violência em potencial, que demanda controle permanente. A compreensão das relações que transformam o território da pobreza em ponto de chegada de uma rede que passa pelo tráfico internacional, pela corrupção policial e pela lavagem de dinheiro dá lugar, na retórica legitimadora da `pacificação`, à celebração das expectativas em torno das “novas oportunidades” de negócios. A venda de drogas ilegais, por sua vez, se estilhaça, mas não desaparece, mesmo nas favelas ocupadas pelas UPPs, onde, sob formas renovadas, continua a funcionar como meio de corrupção.”

– Marcos Barreira em “Cidade olímpica: sobre o nexo entre reestruturação urbana e violência na cidade do Rio de Janeiro”.

“Importante para a organização do filme [Tropa de elite 1], bem como para seu enredo, é a vida dupla do personagem principal e narrador, o capitão Nascimento. Ele quer largar o Bope e se concentrar na criação de seu filho recém-nascido, e o filme é um relato breve de sua busca por alguém que pudesse substituí-lo na “corporação”. Ele é a vítima de um drama de consciência clássico: de um lado, o soldado do conflito armado urbano cotidiano; de outro, o pai de família. Mas, a despeito da subjetividade que organiza o filme, o que marca a história não é o contraste entre os dois lados, mas sua compatibilidade. (...) Depois de saber que um dos seus foi morto por traficantes, Nascimento chega em casa estressado e avisa aos berros à mulher que “quem manda nesta porra” é ele. O machismo jamais foi incompatível com a família, nem a família com o machismo; essa infiltração da violência social na esfera privada, que já estava lá em germe desde sempre, completou-se: é possível festejar o nascimento do filho em meio aos cadáveres ainda quentes dos “vagabundos”. Diante disso, seria possível se perguntar por que é, afinal, que Nascimento quer deixar o Bope. Mas não precisamos nos esforçar para buscar no íntimo moral essa nesga de humanidade que ainda treme diante da morte e quer evitar intimidade com ela, porque, em Tropa de elite 2, descobrimos que Nascimento continua no Bope e continua amando seu filho."

– Pedro Rocha de Oliveira em “Golpes de vista”.



Sumário

Prefácio: A crítica do valor bate à sua porta
Marildo Menegat

1. Golpes de vista
Pedro Rocha de Oliveira

2. Considerações sobre a regulação armada de territórios cariocas
Felipe Brito

3. O Exército nas ruas: da Operação Rio à ocupação do Complexo do Alemão. Notas para uma reconstituição da exceção urbana
Marcos Barreira e Maurilio Lima Botelho

4. Cidade Olímpica: sobre o nexo entre reestruturação urbana e violência na cidade do Rio de Janeiro
Marcos Barreira

5. Crise urbana no Rio de Janeiro: favelização e empreendedorismo dos pobres
Maurilio Lima Botelho

6. Será guerra?
Felipe Brito, André Villar e Javier Blank

7. Complexo dos relatos
Pedro Rocha de Oliveira