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Poder e desaparecimento

os campos de concentração na Argentina

Pilar Calveiro

R$ 42,00 Comprar

Poder e desaparecimento
  • autor: Pilar Calveiro
  • tradutor: Fernando Correa Prado
  • introdução: Juan Gelman
  • prefácio: janaína de Almeida Teles
  • orelha: Maria Helena Rolim Capelato
selo:
BOITEMPO EDITORIAL
páginas:
152
formato:
0cm x 0cm x 0cm
peso:
180 gr
ano de publicação:
2013
ISBN:
9788575593387

“Um livro de espantosa envergadura' – Paulo Arantes

Poder e desaparecimento é uma lúcida e profunda reflexão sobre os campos de extermínio criados na ditadura militar argentina. Combinando a autoridade de quem esteve presa e sobreviveu aos campos e o rigor crítico de uma cientista política, Pilar Calveiro faz uma análise da política, das dinâmicas de poder, nas experiências do dia a dia nos campos, mas também de maneira mais ampla, no horror do regime autoritário. Este livro é uma absoluta façanha: Calveiro sobreviveu à situação mais extrema do horror militar e manteve a corajosa tarefa de pensar a experiência.

Subvertendo a proposta do testemunho bruto, o livro entrelaça diferentes depoimentos de sobreviventes com análises “distanciadas” a respeito da formação histórica, social e psicológica do totalitarismo na sociedade argentina. O relato, escrito na terceira pessoa, transforma o sofrimento pessoal em sofrimento social, carregando-o de força política. Nas palavras da crítica literária Beatriz Sarlo, numa análise do estilo de Pilar Calveiro: “Do ponto de vista moral e político, ela fala como cidadã, não como ex-militante presa e torturada. Seu direito vem de algo universal, e não de uma circunstância terrível”.

O livro se inicia com uma análise da legitimação das Forças Armadas, justificando sua intervenção supostamente moderadora na política. Fugindo dos clichês, a antropóloga não se prende a categorias fáceis, tomando seus objetos de estudo como construções complexas, o que vale tanto para os militares quanto para os prisioneiros nos campos, que não são vistos nem como “heróis” nem como “traidores”. Em sua complexidade, o relato de Pilar Calveiro mostra como a experiência nos campos de concentração não foi um fenômeno isolado, estranho à sociedade e à história argentina, mas parte de sua trama, um autoritarismo “profundamente arraigado no tecido social”. Pilar Calveiro rompe, portanto, com silêncios confortáveis e se debruça sobre o universo inaudito do horror naturalizado.

Para a antropóloga, os campos de extermínio são a expressão concreta e o protótipo da barbárie civilizatória em seu processo de naturalização social. Localizados descaradamente no centro da sociedade, os campos só puderam existir porque essa sociedade em que se inserem escolheu não os ver. Máquina desumanizadora da vítima e do algoz, o campo de concentração exige condutas “menos humanas”, como peças, corpos ou engrenagens: “degradar e se degradar são parte de uma mesma ação”, diz a autora.

O livro demonstra as dinâmicas de poder, ocultas e manifestas, nos campos. Mantém-se oculto aquilo que pode perturbar o funcionamento normal da sociedade; expõe-se aquilo que, propositalmente, disciplina a vida nela. Pilar Calveiro revela que, “para disseminar o terror, cujo efeito imediato é o silêncio e a inação, é preciso mostrar uma fração daquilo que permanece oculto”. A antropóloga constrói um arcabouço conceitual próprio para entender essas dinâmicas de poder, com definições densas de mecanismos associados ao complexo exercício desse poder, com fragmentação, racionalização e arbitrariedade.

A obra de Pilar Calveiro se tornou referência fundamental nos julgamentos de violações contra os direitos humanos na ditadura da Argentina. Segundo a imprensa desse país, o livro promoveu uma mudança na literatura sobre a repressão. Além do prefácio original, do jornalista e poeta vencedor do Prêmio Cervantes, Juan Gelman, a edição brasileira vem acrescida de uma apresentação de Janaína de Almeida Teles, intitulada “Ditadura e repressão no Brasil e na Argentina: paralelos e distinções”, que põe em foco a relevância do texto diante da situação política atual do Brasil em tempos de Comissão da Verdade.

Trechos do livro

“Na história humana não existem parênteses inexplicáveis. E é precisamente nos períodos de “exceção” – esses momentos infelizes e desagradáveis que as sociedades pretendem esquecer e colocar entre parênteses – que aparecem, sem mediações nem atenuantes, os segredos e as vergonhas do poder cotidiano. A análise do campo de concentração como modalidade repressiva pode ser uma das chaves para compreender as características de um poder que circulou em todo o tecido social e que não pode ter desaparecido. Se a ilusão do poder está em sua capacidade de fazer desaparecer o disfuncional, não menos ilusório é a sociedade civil supor que o poder desaparecedor desapareça através de uma mágica inexistente.”

“Os campos de concentração, esse segredo altissonante que todos temem, muitos desconhecem e alguns negam, somente é possível quando a tentativa totalizadora do Estado encontra sua expressão molecular, penetra profundamente na sociedade, permeando-a e dela se nutrindo. Por isso constituem uma modalidade repressiva específica, cuja particularidade não se pode desdenhar. Não existem campos de concentração em todas as sociedades. Há muitos poderes assassinos; é quase possível afirmar que todos o são em certo sentido. Mas nem todos os poderes são concentracionários. Explorar suas características, sua modalidade específica de controle e repressão, é uma forma de falar da própria sociedade e das características do poder que então se instaurou e que se ramifica e reaparece, às vezes idêntico e às vezes modificado, no poder que hoje circula e se reproduz.”

“O poder muda e reaparece, a cada vez diferente e igual. Suas formas são subsumidas, tornam-se subterrâneas, para aparecer novamente e renascer. Acredito que um exercício interessante seria tentar compreender como se recicla o poder desaparecedor. Quais são suas desintegrações e suas amnésias nesta pós-modernidade. Como reprime e totaliza, embora se manifeste no mais radical individualismo. Quais são suas esquizofrenias e como se nutre das falsas separações entre o que é individual e o que é social. Como conservar a memória, encontrar suas fissuras, e sobreviver a ele.”