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Uma obra memorialística, que entrelaça a história de amor do casal com o itinerário político e intelectual de Jinkings (1927–1995). A primeira – e central – parte do livro é um relato de Isa sobre sua vida com Antônio, o início do namoro nos anos 1940, o casamento, a construção familiar e a longa história de cumplicidade que atravessou mais de quatro décadas. As lutas políticas são parte fundamental dessa história que resistiu a prisões e perseguições de todo tipo. Jinkings, criador da primeira Boitempo nos anos de chumbo, fundou com Isa em 1965 a Livraria Jinkings, em Belém, que se tornou referência e importante ponto de encontro cultural, intelectual e de resistência política na região. Premiado como livreiro do ano em 1994, por votação dos livreiros de todo o país, Jinkings se tornou personagem fundamental na história do livro e da leitura no Pará e no Brasil.
A segunda parte reúne escritos jornalísticos de Jinkings refletindo sobre o cenário político da época, sua atuação como líder bancário – presidiu o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) – e dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB). A terceira seção traz dois textos maiores: do economista Roberto Corrêa sobre a trajetória sindical de Jinkings, que o levou à prisão e a ter os direitos políticos cassados pós 1964; e da professora universitária e escritora Amarílis Tupiassú, com ênfase no livreiro e intelectual.
A obra se encerra com depoimentos dos filhos, camaradas e amigos. Traz apresentação de Ivana Jinkings, prefácio de José Paulo Netto e orelha de Marcelo Rubens Paiva: “Ele era apaixonado pela mulher. Daquele jeito antigo, inteiro, sem cinismo. Enquanto o Brasil trocava de moeda, presidente e esperança, ele construía uma família enorme, barulhenta, viva. Filho entrando e saindo da sala, livros espalhados pela casa, calor amazônico, almoço longo, preocupação com dinheiro e conversa política atravessando a madrugada. A resistência também acontecia ali. Dentro de casa. E está tudo registrado aqui, em bilhetes, cartas de amor e fotos, muitas fotos, de uma família que fala de boca cheia o sobrenome”, escreve Marcelo.
Nosso amor adolescente cresceu, forte, verdadeiro. Era a primeira vez que experimentávamos um sentimento assim, que nos dominava, fazia desejar a presença um do outro a cada instante. Um dia, falando sobre meu futuro, imagino que se referindo aos estudos, ele disse, as duas mãos segurando meu rosto: “Teu futuro sou eu”. Ainda hoje, lembrando, sinto de novo o arrepio daquele momento. Foi uma declaração espontânea, pura e absolutamente inesquecível.” – Isa Jinkings “Jinkings foi preso e respondeu a inúmeros inquéritos, tendo seus direitos políticos cassados. O banco, impossibilitado de demitir um concursado, suspendeu seu pagamento e, após decisão judicial, voltou a pagar um terço do salário. Para sustentar sua família, Jinkings e Isa estabeleceram uma barraca de alimentos na feira da praça Batista Campos, frequentada por colegas do banco, simpatizantes e até adversários respeitosos. Em seguida, ele tornou-se representante de editoras que o conheciam como o leitor voraz que costumava pedir livros pelo correio. Nascia assim a Livraria Jinkings, na sala de visitas do número 1.567 da rua dos Mundurucus.” - Roberto Ribeiro Corrêa "Relembrando Jinkings, seu companheiro de vida e lutas, Isa contribui – como poucos o fizeram – para ampliar o espaço ainda parcamente explorado e conhecido das vivências e dos comportamentos pessoais e prático-imediatos de comunistas ilustres." – José Paulo Netto