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Foi no meu aniversário de oito anos que a verdade chocante a respeito das pessoas negras fora de nossos muros chegou até mim. Nunca vou me esquecer de como tudo aconteceu, às cinco horas da tarde. Já naquela manhã havia algo estranho no ar. Eu sentira que havia uma agitação entre as freiras, embora elas parassem de cochichar e fechassem a cara quando alguma de nós se aproximava. Então, na hora das vésperas, íamos caminhando para a capela, duas a duas, como de hábito, quando de repente o silêncio foi rompido por um grito prolongado. Muitos anos já se passaram desde então, mas ainda me lembro daquele grito que transpassou o ar quente e nos fez estremecer. Só um sofrimento inumano seria capaz de arrancá-lo de uma garganta humana. Depois de um instante, outros gritos se levantaram, igualmente terríveis. Não era só um, mas vários homens estavam compartilhando o mesmo destino aterrador. Para chegar à capela, tínhamos de atravessar um passeio central que ia dar na entrada principal do orfanato, um portão de ferro batido, sempre fechado a corrente e cadeado. Pelas grades do portão podíamos enxergar a rua. Acorrentados uns aos outros e com os pulsos amarrados atrás das costas, homens eram conduzidos por guardas negros armados de chicotes. Cerca de vinte metros nos separavam daquele cortejo lastimável. Longos fios de sangue escorriam pela pele negra dos prisioneiros. Os infelizes pareciam estar nus. Num reflexo apavorado de minha formação, fiz o sinal da cruz e pedi a Deus que tivesse piedade deles”.