Mary Wollstonecraft e o nascimento do feminismo
Retrato de Mary Wollstonecraft, por John Opie (via Wikimedia Commons).
Por Maria Lygia Quartim de Moraes
“É hora de efetuar uma revolução nos modos das mulheres — hora de devolver-lhes a dignidade perdida — e fazê-las, como parte da espécie humana, trabalhar reformando a si mesmas para reformar o mundo.“
— Mary Wollstonecraft, Reivindicação dos direitos da mulher.
Eis um texto escrito em fins do século XVIII que continua atual. Por sua defesa veemente da igualdade entre os gêneros, Reivindicação dos direitos da mulher pode ser considerado o documento fundador do feminismo. Publicado em 1792, em resposta à Constituição Francesa de 1791, que não incluía as mulheres na categoria de cidadãs, o livro denuncia os prejuízos trazidos pelo enclausuramento feminino na exclusiva vida doméstica e pela proibição do acesso das mulheres a direitos básicos, em especial à educação formal, situação que fazia delas seres dependentes dos homens, submetidas a pais, maridos ou irmãos.
Outra marca distintiva de Reivindicação é o fato de ter sido escrito por uma mulher numa época em que a vida pública era circunscrita aos homens. Sua autora, a inglesa Mary Wollstonecraft (1759-1797), foi uma intelectual libertária, uma ativista das causas dos oprimidos, cuja militância antiescravagista é hoje reconhecida oficialmente com sua introdução formal no panteão dos abolicionistas ingleses. Como outras mulheres intelectuais e emancipacionistas,Mary enfrentou obstáculos de natureza variada no decorrer da vida. Sua infância foi prejudicada pela violência paterna; foi autodidata; enfrentou os limites sociais de seu tempo para conseguir conquistar a autonomia financeira e sofreu os preconceitos moralistas com respeito à sua vida sexual e afetiva. À época do lançamento da Reivindicação, porém, já era uma intelectual de prestígio nos círculos de vanguarda da sociedade inglesa.
Extremamente revolucionária para a época, a Reivindicação foi traduzida para vários idiomas, tornando-se um referencial teórico para outras mulheres, precursoras do feminismo contemporâneo. O texto trata da condição de opressão da mulher na sociedade inglesa num período histórico marcado pelos ideais iluministas e pelas profundas transformações que o capitalismo industrial traria para o mundo. E, apesar da distância histórica que diferencia a situação das mulheres de hoje em relação à realidade de Mary Wollstonecraft, a luta pela igualdade de gêneros continua atual.
Um breve mergulho na Europa do século XVIII
O desenvolvimento do capitalismo industrial na Inglaterra foi o propulsor das profundas transformações ocorridas na Europa no século XVIII. A Inglaterra era o maior império colonial de então, dominando o tráfico negreiro e explorando suas colônias na África e na América, por meio do sistema de plantation. Esse sistema estabelecia uma organização triangular em que os comerciantes ingleses propiciavam a monocultura de cana-de-açúcar nas colônias das Antilhas e da América Central, vendiam o açúcar na Europa e com os lucros compravam africanos escravizados em seus países de origem. Os Estados Unidos tinham declarado sua independência, e a França vivia o período radical da Revolução de 1789. Os ingleses e inglesas que apoiavam a causa da liberdade dos EUA e, em seguida, a Revolução Francesa foram perseguidos e chamados de traidores a partir do momento em que a Inglaterra declarou guerra à França.
Mary participava ativamente do movimento abolicionista inglês, um dos mais bem-sucedidos movimentos sociais da história moderna, atraindo para sua causa milhares de ativistas. O movimento partira da ação de 22 religiosos ingleses, em 1787, e logo se espalhara por meio da organização de comitês que pressionavam o Congresso com petições e também desenvolviam sua militância porta a porta, distribuindo panfletos que denunciavam as terríveis condições de vida dos escravos nas plantações inglesas do Caribe e das Antilhas. A pressão do movimento foi fundamental para a abolição do comércio de escravos no Império Britânico em 1807.
O feminismo na idade das luzes
“Esclarecimento (Aufklärung) significa a saída do homem de sua minoridade, pela qual ele próprio é responsável. A minoridade é a incapacidade de se servir de seu próprio entendimento sem a tutela de um outro. É a si próprio que se deve atribuir essa minoridade, uma vez que ela não resulta da falta de entendimento, mas da falta de resolução e de coragem necessárias para utilizar seu entendimento sem a tutela de outro. Sapere aude! Tenha a coragem de te servir de teu próprio entendimento, tal é portanto a divisa do Esclarecimento.”1
Assim Kant, contemporâneo de Mary, inicia sua Resposta à pergunta: O que é o Esclarecimento?, que nos ajuda a entender a revolução teórica e política do ousar saber que inspirou aqueles que militavam pela abolição da escravidão e pela igualdade de todos os seres humanos. E a importância da emancipação do pensamento. Como veremos, as ideias emancipacionistas de Mary Wollstonecraft e de sua contemporânea francesa Olympe de Gouges (1748-1793) alimentaram-se do legado iluminista e, ao mesmo tempo, enriqueceram-no. Ambas, à sua maneira, ousaram contestar o discurso dominante em que se apoiava a subordinação da mulher ao homem como um dado da natureza. Ambas participaram ativamente da vida política de seus países, como feministas e como abolicionistas.
Um ambiente social acolhedor; um grupo de estudos; uma célula política lutando pelos direitos dos escravos — tais circunstâncias criaram grupos por afinidade nos quais os homens que tinham absorvido a cultura iluminista, que lutavam pela abolição da escravatura e pela emancipação da humanidade das garras da ignorância eram os mesmos que defendiam os direitos das mulheres. O marquês Nicolas de Condorcet (1743-1794), filósofo, matemático e enciclopedista, defendia publicamente as mesmas teses que Mary Wollstonecraft e Olympe de Gouges, como testemunha seu Sur l’admission des femmes au droit de cité. Indignado com a exclusão das mulheres na Assembleia Constituinte, ele enfatiza o absurdo de se falar em igualdade de direitos enquanto metade do gênero humano é privada de cidadania. Pergunta ele: como se pode falar em direitos iguais quando uma assembleia de 300 ou 400 homens se outorga a prerrogativa de decidir sobre o destino 12 milhões de mulheres? Além do mais, prossegue, para que essa exclusão não fosse um ato de tirania, seria necessário provar que os direitos naturais das mulheres não são os mesmos dos homens, ou provar que elas não podem exercê-los. Pois aquele que vota contra o direito de outro, por causa de sua religião, cor ou sexo, está ao mesmo tempo abjurando seus direitos.
O feminismo iluminista de Mary Wollstonecraft e Olympe de Gouges compartilha da mesma crença na importância da educação e na universalidade de direitos, fazendo eco a Condorcet. É um feminismo que se opõe à escravidão dos africanos e indígenas e à escravidão doméstica. Ambas viveram tempos históricos em que a mulher estava excluída da educação formal, das universidades e das possibilidades de uma carreira de nível superior. E em que o casamento a transformava numa dependente legal do marido, que não podia gerir os próprios bens nem trabalhar sem consentimento. É a eterna menoridade como destino das mulheres.
Olympe de Gouges viveu tempos revolucionários, marcados pelos ideais de igualdade e liberdade. Ela se insere nas agitações políticas da França escrevendo panfletos, tratados políticos, peças de teatro e artigos sobre a questão da mulher. Participando ativamente dos dramáticos anos que se sucederam à queda da Bastilha, Olympe dirige o jornal L’Impatient, funda, em 1793, a Sociedade Popular das Mulheres e publica, em 1791, a Declaração dos direitos da mulher e da cidadã, basicamente uma contraproposta da Declaração dos direitos do homem e do cidadão, na qual “homem” não era usado como sinônimo de “humanidade”, mas como representante do sexo masculino, o que lhe garantia o direito à cidadania. Em alguns pontos, o texto é ainda mais radical do que a Reivindicação, pois propugna não somente a igualdade dos direitos da mulher à educação, mas ao voto e à propriedade privada, aos cargos públicos, ao reconhecimento dos filhos nascidos fora do casamento e à herança.
Gouges, como Wollstonecraft, abraça a causa da abolição da escravatura, a criação de instituições de apoio a mães solteiras e de um teatro para a dramaturgia feminina. Pacifista, como continuam sendo as feministas contemporâneas, Olympe opõe-se à pena de morte. Quanto a isso, mais uma vez o pensamento das duas mulheres se aproxima, pois também Mary Wollstonecraft se chocaria com os desmandos da Revolução Francesa e escreveria um panfleto de denúncia. No ano seguinte, Olympe de Gouges seria presa e, três meses depois, guilhotinada por fazer essas mesmas críticas, tendo seu corpo jogado na vala comum.
A trajetória de Mary Wollstonecraft não foi menos incendiária nem trágica: ela e os irmãos viviam sob o jugo do pai, um déspota doméstico que não somente dilapidou os bens da família em negócios desastrosos, como os obrigou a constantes mudanças de residência. Aos dezenove anos, Mary sai de casa e passa a se sustentar por meio de um emprego doméstico, insatisfatório. Em 1874, junto com a irmã Eliza, que ajudara a escapar de um marido violento, ela funda uma escola em Newington Green, comunidade com forte presença de livres pensadores.2 Essa experiência de ensino dá inicio a sua intensa atuação em prol da educação feminina. Em 1874, publica o panfleto Thoughts on the Education of Daughters: with Reflections on Female Conduct, in the More Important Duties of Life e passa a dedicar-se à literatura, tornando-se tradutora e conselheira de Joseph Johnson, editor de textos radicais. Em 1788, com o lançamento da revista Analytical Review, Mary começa a contribuir regularmente para a publicação, o que lhe dá acesso à vanguarda intelectual e artística da Inglaterra, incluindo Thomas Paine, William Blake e Henry Fuse li, admirador de Rousseau, assim como Mary. O entusiasmo dela por Fuseli transformou-se em amor e, como o artista era casado, Mary propôs à mulher dele que compartilhassem o marido. Ao fazer tal proposição, veementemente rechaçada, Mary agiu com absoluto desrespeito pela monogamia obrigatória e, principalmente, assumiu o papel ativo de sujeito do desejo. É essa coragem em expor seus sentimentos e desejos que constitui seu precioso legado e, ao mesmo tempo, sua vulnerabilidade.
Dessa maneira, a Reivindicação dos direitos da mulher resulta tanto de uma trajetória de lutas militantes de Mary como de seus enfrentamentos contra a moral sexista e conservadora da época. O romantismo que impregnava a sociedade inglesa colaborou para o tumulto de sua vida afetiva: “como mulher de razão e mulher de natureza, ela personifica a complexa tensão e as fissuras do Iluminismo […]. Equilibrando-se entre a Era da Razão e a primeira onda do Romantismo, Wollstonecraft lutou para reconciliar razão e sensibilidade em sua vida e em seus escritos”.3
Interessada em acompanhar a Revolução Francesa de perto, Mary viaja para a França em 1792, vindo a conhecer o comerciante norte-americano Gilbert Imlay, por quem se apaixona profundamente. Esse é um período em que os ingleses passam a ser malvistos na França, levando o cônsul dos Estados Unidos a celebrar um casamento civil que permitiu a Mary passar por norte-americana. Fanny Imlay, a filha do casal, nasce em 1794 em Havre, mas as constantes viagens a trabalho de Gilbert, bem como sua infidelidade, complicam a relação do casal até que ele enfim abandona Mary. Ela atravessa um período conturbado e, muito fragilizada, tenta o suicídio por duas vezes.4 Ao mesmo tempo, dá continuidade à redação de seus textos críticos, focalizando a violência assumida pela Revolução Francesa. O volume 1 do livro, publicado em 1794, intitula-se An Historical and Moral View of the Origin and Progress of the French Revolution and the Effect It Has Produced in Europe.
Em abril de 1796, Mary toma a iniciativa de escrever para o jornalista e filósofo inglês William Godwin e eles passam a se encontrar regularmente, mantendo também uma intensa correspondência, que acompanha o tocante processo de aproximação dessas duas inteligências e a descoberta da atração física criada pela convivência. Poucos meses depois, tornam-se amantes, em uma relação baseada no respeito mútuo e no companheirismo. Dadas as restrições legais que oprimiam as mulheres casadas, ambos optam por, no início, não formalizar o matrimônio, fazendo isso apenas posteriormente, quando
Mary engravida, tendo em vista o estatuto legal da criança prestes a nascer. Infelizmente, quando Mary parecia ter encontrado “a harmonia doméstica e o amor”5, uma septicemia decorrente do parto causa sua morte, aos 38 anos, dez dias depois do nascimento de sua segunda filha, batizada Mary Wollstonecraft Godwin, que viria a obter grande reconhecimento, sob o nome Mary Shelley, como autora de Frankenstein.
Após a trágica morte de Mary Wollstonecraft, William Godwin comprovou sua fidelidade ao legado político da esposa: tratou de organizar os escritos inéditos, uma novela inacabada e a correspondência entre ambos. Ademais, publicou, em 1798, o livro Memoirs of the Author of “A Vindication of the Rights of Woman”, que pode ser considerado a primeira biografia moderna. Nele, numa linguagem direta, numa narrativa sem retoques, Godwin acompanha a trajetória de Mary desde a infância, ressalta sua luta pela autonomia profissional, menciona as diversas transgressões às regras de conduta, tais como a relação sexual e afetiva com Imlay, que resultou em uma criança ilegítima, além do desespero de Mary ao se dar conta do progressivo afastamento do homem que amava e suas duas tentativas de suicídio. Só alguém que amasse Mary tal como ela era poderia expor com tanta simplicidade e respeito tais fatos íntimos de sua vida. William o faz de maneira a não omitir a complexa subjetividade de Mary, sua postura arrebatada no amor que a colocava mais como sujeito do desejo do que no lugar de ser desejado. Para ele, a melhor homenagem a ela seria mostrar a força literária e política de seus textos, sem esconder as conquistas, os infortúnios e os amores dessa mulher inteligente e vulnerável, mas ao mesmo tempo senhora de suas escolhas.
Notas
- Immanuel Kant, Resposta à pergunta: O que é o Esclarecimento? (trad. Luiz Paulo Rouanet, Brasília, Casa das Musas, 2008). ↩︎
- Essa localidade, ao norte de Londres, era uma comunidade rural na qual os não conformistas e dissidentes ingleses refugiaram-se durante o século XVII. Em 1758, o dr. Richard Price, libertário e republicano, mudou-se para lá a fim de ocupar o lugar de ministro da Igreja Unitária. ↩︎
- Sheila Rowbotham, “Introduction”, em A Vindication of the Rights of Woman (Londres/Nova York, Verso, 2010), p. vii-viii; aqui em tradução livre. ↩︎
- Fanny, por sua vez, suicida-se em 1816, aos 22 anos, deixando uma carta em que explica seu ato por ter tido um nascimento desafortunado e ter sido uma fonte de problemas para todos. ↩︎
- Sheila Rowbotham, “Introduction”, cit., p. viii. ↩︎
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Maria Lygia Quartim de Moraes é Professora do Departamento de Sociologia do IFCH e pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero – Pagu, ambos da UNICAMP. É autora (com Rubens Naves) do livro Advocacia pro bono em defesa da mulher vítima da violência (Campinas/São Paulo, Editora da Unicamp/Imprensa Oficial, 2002), e ministrou, no primeiro Curso Livre Marx-Engels, a aula de introdução ao livro Sobre o suicídio, de Karl Marx. É a entrevistada da edição #44 da Margem Esquerda, além de ter publicado ensaios em vários números da revista.
Reivindicação dos direitos da mulher, de Mary Wollstonecraft
Considerado um dos documentos fundadores do feminismo, o livro denuncia a exclusão das mulheres do acesso a direitos básicos no século XVIII, especialmente o acesso à educação formal. Escrito em um período histórico marcado pelas transformações que o capitalismo industrial traria para o mundo, o texto discute a condição da mulher na sociedade inglesa de então, respondendo a filósofos como John Gregory, James Fordyce e Jean-Jacques Rousseau.
Libertária, Mary Wollstonecraft fez de sua própria vida uma defesa da emancipação feminina: envolveu-se na Revolução Francesa e foi uma precursora do amor livre. Tendo falecido logo após o parto de sua segunda filha, não pôde vê-la tornar-se, também, uma famosa escritora: Mary Shelley, a autora de Frankenstein. Extremamente revolucionário para a época, Reivindicação dos direitos da mulher foi traduzido para vários idiomas, se tornou uma referência teórica para as precursoras do feminismo contemporâneo, como Simone de Beauvoir, e uma leitura essencial para as discussões de gênero.
“Reivindicação dos direitos da mulher resulta tanto de uma trajetória de lutas militantes de Mary como de seus enfrentamentos contra a moral sexista e conservadora da época”, diz Maria Lygia Quartim de Moraes, que assina o Prefácio. Citando a feminista britânica Sheila Rowbotham, ela argumenta que Mary, “como mulher de razão e mulher de natureza”, personifica a tensão e as fissuras do Iluminismo, e que a leitura deste livro – escrito em linguagem direta e marcante – “desperta um sentimento de admiração por essa jovem mulher, capaz de superar tantos obstáculos, que lutou obstinadamente para ser feliz e foi muito além dos limites que seu tempo permitia”.
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